5 de jan de 2010

QUANDO NÃO SE PODE VIVER O AMOR...


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QUANDO NÃO SE PODE VIVER O AMOR...




As suas marcas não percebo mais em meu corpo, só o coração as conserva. Por dentro tudo demora mais a desaparecer. O batom foi-se no beijo. A língua retém o sabor amargo da separação. Poderão novos sabores devolver o gosto bom a boca? Os olhos perderam sua imagem de vista, somente quando os cerro você me surge na mente. Só o tempo, quem sabe a distância irá apagá-lo dos meus dias.

Muito já fiz para esquecê-lo. Rasguei-me em choros, deixando dilacerada a alma. Ateei fogo nas recordações coloridas, ficando em cinzas as lembranças partilhadas. De outras cores pintei meus sonhos, lavei com lágrimas a face para me limpar dentro a saudade insistente que mancha de dor o coração.

Tudo tão bom nós dois juntos! Belas horas, risos soltos e legítimos. Em seu olhar, fui seu mundo. E você foi o amor mais lindo personificado. Fomos palavras e orações, complemento um do outro. Tanta beleza em sua totalidade. Sonho realizado, vivenciado, experimentado, gozado. Combinação exata na dose do querer mútuo.

Pude ver em sua face o quanto me queria de amor. Pôde sentir na delicadeza exposta em meus gestos, a expressividade de carinho e paixão do muito que lhe quis. Constatamos "amor existe" e vale esperá-lo a hora certa de recebê-lo. Amor não é busca. Ele simplesmente chega e acontece sem data prevista, sem qualquer forma de escolha. Ele determina, se instala e se faz plenitude.

Enfim, posso afirmar que o amor é lindo. Nem sempre possível e/ou compreendido. Por isso ficaram comigo somente nossas lembranças. Amor que não se vive só restam cicatrizes. Estou tentado, então, guardar todo amor vivido e sentido como um mimo ofertado generosamente pela vida. Um belo presente que recebemos e não soubemos aproveitá-lo...





Djanira Luz

BORRACHAS NÃO APAGAM VIDAS!


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BORRACHAS NÃO APAGAM VIDAS!


Se houvesse uma borracha especial para apagar partes da vida, certamente eu faria uso eliminando boa parte dos anos da minha.

Quando criança apagaria aquela vez em que joguei água quente na lagartixa e não satisfeita, coloquei sal por cima da pobrezinha vendo as bolhas se formando. Há uma crueza ingênua na criança que chega ser perigosa, pois geralmente não se tem noção do que se faz no momento da pouca idade. Só mais tarde, de posse do discernimento é que caímos na real crueldade cometida.

Se houver reencarnação, certamente voltarei como lagartixa para sentir na pele frágil o mal que causei a uma delas.
Confesso que a culpa indireta foi de ter ouvido várias vezes, por muitas pessoas a seguinte absurda frase:

“- Quando o rabo da lagartixa sai e fica mexendo, ela está xingando nossa mãe!”

Eu amava (amo) muito mamãe e, talvez, inconscientemente o que fiz, foi uma vingança honrosa infantil na minha vã concepção. Sei que nada justifica a maldade feita, mas psicologicamente, algum estudioso deve saber explicar minha vergonhosa atitude.

Voltemos ao foco principal da crônica, a questão da borracha. Com sentimentos não tem jeito, nem objeto capaz de eliminar as rasuras dos erros ou sofrimentos passados. Como seria valioso possuir um corretivo, desses Liquid Paper usuais e poder encobrir aquilo que não me foi satisfatório, reescrever nova página com os acertos desejados.

Seria menos doloroso olhar para trás e não ver resquícios daquilo que me fez sofrer ou que me envergonha lembrar. Poder ter a chance de apagar ou encobrir partes do vivido faria de mim uma pessoa mais feliz com lembranças que não machucam ou desonram.

Há mais dores do que vergonha que gostaria de eliminar da minha vida, pois cada vez que recordo, quem se apaga de cores sou eu mesma. Quase desapareço de tanta tristeza que me invade.

Lamento aquilo que não fiz por ter desistido de lutar pela vitória, sinto ter permitido alguém querido partir sem descruzar os braços, quando apenas um aceno era suficiente para tê-lo a meu lado. Arrependo das palavras que não disse ou das que abusei dizê-las. Enfim, entre tantas outras coisas que vi e nada fiz para mudar meu futuro, padeço.

Ainda bem que a único fato que tenho vergonha é o da lagartixa. Mas, apesar de não existirem borrachas que apaguem tais atos, tanto vergonhosos quanto tristonhos, eu bem sei que há uma maneira de desbotá-los. Sempre que choro, além da vista embaçada, ofusca-me um pouco mais as tristes lembranças e suas imagens vão sendo lentamente apagadas da minha mente.

Entendo que não posso extrair de mim o que não gostei ter vivido, pois foram os meus erros e desenganos que me tornaram a mulher que sou hoje. Com falhas, risos e choros, porém, muito melhor a cada primavera.

Nossa! Tenho estado com ar tão retrospecto. Deve ser por estar na iminência de completar nova idade. É!rs


Djanira Luz