19 de fev. de 2010

DESAMORES...



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DESAMORES...


Acreditei na palavra
havia vida nela
Acreditei no olhar
um brilho intenso eu vi
Acreditei nas mãos
calor dos afagos provei
Acreditei no sorriso
alegria abrindo portas
Acreditei no beijo
universo em encantos
Acreditei no amor
foi aí a minha queda
Mergulhei no mar escuro
desencantei
entristeci
desiludi
parti para esquecer
onde ele não estivesse
Apaguei histórias,
falas, cantos, letras
Acredito hoje só em mim
para continuar inteira
Ainda me dói, ainda lembro
de tudo, do tempo vivido
das horas, das promessas
não cumpridas,
Hoje as mãos separadas
- as minhas das dele
Aos poucos recomponho
o coração aos pedaços
saudade fica,
um dia se vai
quando estiver aberta
pronta para o novo amor
que me espera
em algum lugar
onde eu encontre
um porto alegre
e seguro...




Djanira Luz

18 de fev. de 2010

ESTRELAS DOS OLHOS TEUS...



FOTOGRAFIA DO MEU ARQUIVO PESSOAL.


ESTRELAS DOS OLHOS TEUS...


Alimento-me das tuas lembranças
Tudo o que vejo é tu me vens a mente
Saboreio estrelas doces do teu olhar
A me cintilar gozos em aromas frescos...
No peito sentimentos ardem amor
Pulsam suaves vermelhas paixões
Com todas transparências verdades
Neste meu querer expressado na face...
Enquanto aprecio fatias de carambolas
Tempo encarrrega-se de paralisar as horas
Vou enchendo-me, então, de saudades de ti
Esvaziando o prato estrelas dos olhos teus...

Djanira Luz

17 de fev. de 2010

ALEGRIA PEDE PASSAGEM...




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ALEGRIA PEDE PASSAGEM...



Tem horas que não sinto nada ruim. Esqueço a saudade que machuca, a dor do corpo e alma, a tristeza que não acaba, a mágoa que faz chorar. Nesses momentos o coração tira descanso das coisas que angustiam. Deixo a alma seguir livre por caminhos da serenidade, do amor que não me cabe, da felicidade desmedida, do conforto inexplicável onde o espírito fica em total harmonia.

Estou feliz. Uma felicidade calma, leve, sem alarde. De ficar quieta num canto como espectadora sem nada a fazer, apenas observando cada beleza possível de captar com os cinco sentidos e todo encanto de poder provar o amor latejando-me o coração.

Amar a vida apreciando o bom dela que me chega através dos quatro elementos, formadores da natureza,
esta fórmula de sensações constroem a minha felicidade. É que não sou exigente para ser feliz. Basta-me tão pouco. Poder saborear belezas do Universo, tendo um amor no peito fica tudo tão mais perfeito.

Em dias de contemplação conscientizo-me da riqueza que possuo nos cinco sentidos e nos quatro elementos. Uma soma suficiente para deixar meu dia em estado de graça e agradecimento ao Criador pela possibilidade de ver, sentir, tocar, respirar, ouvir, viver, sobretudo, poder amar e ser amada.

Bom que esta minha serenidade deu-se justo na Quarta-feira de Cinzas. Tempo de queimar o que não foi tão belo, o que causou dor – a outros e a mim. Tempo bom para mudanças, de restaurar pensamentos, de transformações. De deixar morrer algo que fere e, das cinzas, poder brotar vida. Vida nova com alegria e esperanças renovadas.

Horas de não sentir nada de mal deveriam durar eternidades. O bom é que posso ter várias horas felizes se souber queimar as dores, as saudades, as amarguras, as desilusões. E com as cinzas saber que igual a Fênix, eu também posso novamente, recomeçar para continuar buscando outras maneiras de ser feliz a cada fase nova da Lua.




Djanira Luz

16 de fev. de 2010

AMOR DE CARNAVAL!



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AMOR DE CARNAVAL!


Fim de folia no meio do salão
Boca toda borrada de batom
Beijo do Príncipe Encantado
É carnaval, amor mascarado!




Djanira Luz

15 de fev. de 2010

FIM DA ESPERA PELO AMOR...



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FIM DA ESPERA PELO AMOR...



Cellyne não admitia a ideia da irmã preferir ficar só a aceitar novo amor:

- Eu não acredito que você desistiu de amar! Não concordo esse seu pensamento de não querer conhecer outra pessoa, Alana.

De olhar manso, as feições serenas e com ar de quem tem convicção das escolhas, Alana respondeu as questões da irmã:

- Querida mana, sei o quanto deve ser difícil alguém compreender o que sinto, o que deseja meu coração. Sim, é bem isso mesmo que acabou de dizer. Não quero conhecer outro amor porque o Antônio tem todas as virtudes que desejei conhecer num homem. Até as possíveis imperfeições dele me são agradáveis. Aprendi a amá-lo em plenitude. Seus defeitos e qualidades. Ele é o amor da minha vida, sei disso.

Inconformada, Cellyne tentava convencê-la de que estava equivocada com aquele pensamento ultrapassado.

- Deixa de bobagem, Alana! Amor assim é coisa do passado. É bonito em livros, em contos de amor. Atualmente amor assim não existe. E até nas histórias, ocorrem alguns amores sem finais felizes. Acaso não se lembra do Romeu e Julieta? – Cellyne parecia mesmo preocupada com a irmã.

Por mais que falasse, nada conseguiria modificar a intenção da Alana. Estava certa do seu querer. Divertindo-se com a fala da irmã, porém, entendendo sua preocupação, tentou fazê-la aceitar:

- Cellyne querida, sabe o quanto a estimo. Você é minha irmã amada, por isso peço que ouça com atenção o que tenho a dizer. Por favor, respeite a minha vontade. Não espero que entenda, apenas que aceite e me apoie.

Alana aproximou-se da irmã que estava sentada na poltrana da varanda. Abraçou-a dizendo:

- Sabe, desejei encontrar alguém que fosse assim sob medida para minha vida. Ele deveria preencher-me os espaços vazios completando a parte reservada para o homem especial. E o Antônio é além dos sonhos que tive. Ele me faz feliz demais, Cellyne. Por isso não quero outro amor. Não mesmo!

- Mas, Alana querida, ele vai morar em outro país... Não há amor que resista tanta distância. É melhor aceitar isto e partir para novo momento em sua vida. Precisa abrir espaços, oportunizar que outro homem tente fazer com que sinta o mesmo amor sentido pelo Antônio. Quem sabe até bem mais. Não se iluda, logo, logo ele irá esquecê-la!– Cellyne tentou animá-la.

- Sim, entendo que o Antônio precisa seguir sua vida, ir para outro país, para longe de mim, Cellyne. Acontece que ele permanecerá aqui para sempre no meu coração. E você pensa que não tentei esquecê-lo? Apagá-lo de vez de mim? Cansei das vezes que lutei contra este sentimento alojado no peito, no pensamento, na alma e no meu espírito. Mas, este amor fez de nós dois seres integrados, nossa química de amor fez-nos DNA. É um amor bonito, forte, eterno. Não quero outro. Só de saber que o Antônio respira o mesmo ar que eu, seja a distância que esteja, isto me basta. Poder amá-lo é suficiente, me faz bem e feliz. E não preciso dar chance para outros homens. Acabaram-se as buscas para encontrar um amor, pois já o tenho! Dos amores que tive, Antônio é o amor. Eu o adoro.

- Ahhhh, já vi que não tem jeito esse amor, perda de tempo tentar convencê-la do contrário! Ao invés tentar mudar seu pensamento para desistir dele, vou rezar, pensar positivamente, pedindo a todas as forças da Natureza, a Deus de todo o Universo que o Antônio volte para seu lado e vivam esse amor lindo e raro. – Cellyne estava emocionada com toda a certeza da irmã.

- Agora sim estou feliz, querida! Quanto mais pensamentos positivos para me unir ao meu grande amor, mais força e chances terei de realizar este meu sonho ao lado do homem que amo demais.

Algumas vezes é preferível ficarmos sós a espera do grande amor a nos aventurarmos num relacionamento em que nos sentimos incompletos, que falta algo mais. E este "algo mais" é um amor que vale a pena aguardar a sua chegada ou o seu retorno.


Djanira Luz

14 de fev. de 2010

LUGAR NENHUM!



Fotos do meu arquivo pessoal - Mamãe Maria Quintanilha


LUGAR NENHUM!


Custei a entender. Criança na época em que fui criança era mais ingênua. Hoje criança que é ingênua é chamada de “lerda”. Muda a nomenclatura, no fim quer dizer a mesmíssima coisa. Pensando bem, com a globalização, com tanta modernidade, acho que nem existe mais criança "lerda". Algumas já até nascem com um GPS aclopado para não se perderem neste imenso planeta!

Hoje eu sei o por quê. Hoje sei onde não fica aquele lugar...

Mamãe sempre foi uma mulher bonita. Longos cabelos negros cacheados, pele clara e rosada. Típica menina da região serrana do Rio. Das montanhas, ar frio. Quando ela passava um o pó-de-arroz, batom, ficava dando jeito nas madeixas e usava um vestido mais bonito, eu perguntava:

- Mamãe, aonde você vai?

Mamãe sorria e respondia:

- Lugar nenhum...

Era só ouvir isso para eu choramingar e ficar implorando ao seu redor:

- Mãe, me leva... Eu quero ir também...

E vinha outro irmão que repetia a minha pergunta. Mamãe respondia do mesmo jeito adocicado de ser:

- Vou a lugar nenhum...

Aí, vinha a caçula e de novo a pergunta e mamãe respondia sem perder a paciência. Só que minha irmã caçula fazia manha, chorava. Um escândalo! Então, mamãe já rindo, explicava:

- Não vou a lugar nenhum! Não vou sair. Coloquei um vestido novo porque papai volta do trabalho hoje...

Alguns dias papai precisava ficar no trabalho, de plantão. E mamãe queria estar bonita para ele quando chegasse. Era isso.

Depois meus irmãos e eu entendemos que aquele lugar "não ficava" porque ele não existia. Era lugar nenhum!




Djanira Luz

PERIGO NAS CRECHES!




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PERIGO NAS CRECHES!

Adoro sementes por sua representação e o que de bom delas virá. Quando as observo sempre imagino que darão bons frutos, nunca o contrário. Claro que devo dispensar cuidados necessários para que cresçam do jeito que espero. Boa terra, adubação, luz, irrigação, enfim, fazer a minha parte para a certeza da boa colheita.

Assim penso em relação aos meus filhos. Espero que frutifiquem do jeito que são cuidados - com amor, atenção, educação e respeito. Imagino estar utilizando os ingredientes certos em boas doses suficientes a se tornarem adultos dignos e generosos, a exemplo do que recebem.

A reportagem daquelas – educadoras!? - agredindo criancinhas indefesas nas creches causou-me dor e revoltas profundas. A começar pela desproporção física das agressoras. A violência absurda contra inocentes tão pequeninos foi uma imagem que jamais desejaria assistir. O que de bom estas sementinhas poderão germinar amanhã se conhecem desde cedo a agressão onde deveriam aprender a respeitar e amar ao próximo?

Ter visto tempos atrás, empregadas agredindo crianças já foi terrível. Daí assistir crianças covardemente atacadas por educadoras que estudaram, se prepararam, se habilitaram e receberam diplomas para lecionarem ou cuidarem de crianças é demais para um coração de mãe, de mulher, de pai, de homem e de qualquer cidadão de bem!

Sinceramente, não vi atos de humanos naquelas repulsivas imagens, antes vi atitudes de animais irracionais exageradamente agressivos. Mulheres amargas, brutas, sádicas! Senti tanta compaixão daquelas crianças, sobretudo da menininha, cuja “professora” a suspende bruscamente e a coloca sentada com tanta indelicadeza de doer a alma de quem assistiu aquela dolorosa cena. A menininha parecia uma boneca de pano tanto o desrespeito dado a ela. Coitadinha da coluna desta criança! Deus permita não haver sequelas futuramente.

Não desejo a morte a essas mulheres miseráveis. Desejaria sim, imensamente, que o Governo criasse um programa de reabilitação para esse tipo de agressores. Os agressores seriam tratados como os indefesos. Haveria homens fortes, tipo seguranças de boate - os Leões-de-Chácara -, eles seriam responsáveis de cometerem os mesmos gestos brutos aos agressores que foram sofridos pelas crianças. Seria bem justo, pois é assim que agem. Com covardia desproporcional. Quem sabe sentindo por um mês na pele, não aprendam a respeitar crianças e filhos dos outros!

Sinto tanto pelos pais deste Brasil imenso que necessitam confiar os filhos nessas creches. Imagino a dor da mãe, a revolta do pai, da família ao visualizarem a reportagem. Porque só de ver, tomei as dores para mim, quis fazer alguma coisa. Tive sentimentos repulsivos diante de tamanha violência.

O que me cabe é dar dicas aos pais para que verifiquem as creches antes de colocarem seus filhos nelas. Se notarem que seu filho, mesmo sendo uma criança de um aninho começa a ficar agitado ou chora sem causa aparente, desconfie. Se não está doente, se não tem problemas em casa, atente para a possibilidade dele estar sofrendo violência na creche.

Conversem com outros pais. Certifiquem-se o mesmo ocorre em outras famílias, se há mudança no comportamento da criança. Se de repente ela começa a ficar agressiva, a ter atitudes diferentes do habitual, fiquem atentos. Muitas vezes a própria professora mascara as agressões dizendo que é normal no período de adaptação ou nos inícios dos anos em creches, a criança apresentar alterações no agir.

Caso a creche não tenha sistema de seguraça, reúnam-se com outros pais e procurem um jeito de adquirem de forma que todos contribuam para a aquisição das câmeras. É melhor investir ainda que tenham gastos extras, pois nada vale mais que a segurança, a alegria e o bem-estar de um filho e a tranquilidade dos pais.

Queremos filhos e cidadãos bons frutos amanhã. Se não tiverem cuidados, se não forem bem orientados, educados com respeito e amor, a colheita será totalmente perdida, pois frutos bons necessitam de tratamentos especiais. E os pais desejam que as boas sementes que são os filhos, vivam em segurança e cresçam cheios de carinho e atenção. VIOLÊNCIA, NÃO!



Djanira Luz

13 de fev. de 2010

A MULHER SEM CORAÇÃO...


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A MULHER SEM CORAÇÃO...


Todos perceberam a drástica mudança no comportamento e no humor daquela mulher. Havia muitos dias que se fechara para as conversas que tanto amava. Antes atenta, agora era vista assim, dispersiva, divagando introspectivamente.

Ela que possuía riso fácil e que expressava energia em gestos elétricos do corpo numa alegria pulsante e contagiante que trazia em si, encontrava-se
naquele marasmo de causar compaixão.

Quem a encontrava nos últimos dias precisava falar-lhe duas ou três vezes para obter um fiapo da sua atenção. Distraída como que fora de órbita. Olhar fixo em algum ponto que lhe era precioso a procura de algo igualmente caro.

Sempre que a via, causava-me comoção. Tudo nela estava mudado. O jeito, as vestes, a aura. Quisera entender o motivo de tamanha transformação. Para onde deveriam ter ido os sorrisos constantes, os olhares brilhantes e alegres de mil diamantes, a fala adocicada e melodiosa, a empolgação de tantas andorinhas que fazia de um simples fato, a mais alucinante das histórias encantadas?

Não queria parecer indelicada ou ser vista como uma curiosa qualquer. Mas, eu precisava descobrir a razão do silêncio forçado, do sorriso desfeito, dos sonhos interrompidos e da boca emudecida que tomaram conta da vida dela.

Maior do que minhas interrogações era o desejo em ajudá-la. Foi o que me moveu aproximar-me da mulher. Um tanto sem jeito e um leve tremor na fala, dei quase inaudível uma “boa tarde”. Para minha admiração ela me olhou sem qualquer expressão de ódio ou desprezo. Havia sim, em sua face, a mesma expressão de insegurança e dúvida que eu tinha naquela hora.

Ambas estávamos receosas com a atitude da outra. Eu não sabia o que perguntar, ela o que responder. Depois de grande silêncio que me congelou a alma, a mulher outra vez me fitou. Desta vez mais pausadamente como que analisando em meus olhos as perguntas que a boca não ousou fazê-las.

Balançando a cabeça afirmativamente, num consentimento e aceitação em satisfazer minhas questões, finalmente falou:

- Quando se foi num adeus comprido, daqueles que sabemos sem chance de ver outra vez, ele levou de mim meu sorriso, meu canto e a claridade dos meus dias. Descolori, emudeci, já quase não existo... Era o que esperava entender, não era minha jovem?

A voz ainda era doce, embora a amargura sufocasse qualquer vestígio de contentamento. É! Ela estava certa. Em poucos minutos, sem qualquer pergunta, obtive todas as respostas que sanaram minhas inquietações.

Eu havia desvendado o mistério que assombrava a triste mulher. Pude perceber com minha intuição feminina e, talvez, ela sequer tenha desconfiado o motivo de encontrar-se naquela solidão sem esperanças. É que mais do que risos, brilhos e sonhos, o homem amado havia levado junto para onde partiu, o coração daquela mulher, deixando-a com o vazio na alma...



Djanira Luz

12 de fev. de 2010

É TANTO AMOR ASSIM!


As imagens desta página são do meu arquivo pessoal

É TANTO AMOR ASSIM!

Deixar de amar-te não tem jeito
Amor assim deve mesmo ser defeito
Desequilibra todas minhas estruturas
Saio aqui do chão vou para as alturas
Do meu corpo tu tomas de vez posse
Como se propriedade tua eu fosse
Penetras no mais íntimo de mim
Percorres todo o peito até os confins
Aloja-te nele e faz tua segura morada
Toma-me e dizes que sou tua amada
Aos poucos rendo-me a esta garantia
Só tu dá-me equilíbrio e harmonia
Imensa paixão por ti que pareço sonhar
Tu és o homem certo que desejo ficar
Estamos presos nos entrelaços das mãos
É tanto amor florescendo no coração...







Djanira Luz

10 de fev. de 2010

OS PEDACINHOS DE LIDIANE...



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OS PEDACINHOS DE LIDIANE...


Havia um certo ar de mistério. Parecia que escondia algo. Bem, era esta a impressão que tinha quando passava por ela. Sempre segurando um caderninho, uma caneta com coração, dessas decoradas que meninas adoram. No ombro, uma bolsa pendurada e muito suspense a tiracolo! Devia ter, no máximo, seis anos.

Durante dias imaginei as mais absurdas histórias sobre o suposto segredo que carregava aquela garotinha de olhar que sabe tudo e muito mais que imagino. Ocasionalmente tive a impressão que era muitas vezes mais sabida do que eu. Aqueles olhos graúdos carregavam histórias que eu desejava conhecer. Algo nela atraía-me com peculiar fascínio. Uma doçura, uma ingênua intrepidez. Vários adjetivos notei naquela menina. O desejo de ser pai talvez tenha sido o motivo maior do meu interesse pela criança adorável.

Era certo encontrá-la em frente a floricultura Flores da Alma no centro da cidade, por volta da dez da manhã. Parecia britânica pela pontualidade. Deduzi, seu estudo deveria ser vespertino, pois nunca a encontrei uniformizada naquele horário. Precisava aproximar-me dela e descobrir o que fazia diariamente ali, que ritual seria? Apesar de querer conhecê-la mais de perto, era preciso acautelar-me, pois com essa onda de pedofilia todos andam desconfiados, com toda razão!

Na manhã seguinte enquanto caminhava para o consultório, avistei a menininha como de costume. Resoluto a descobrir o que fazia ali, como “Sherlock Holmes”, com o jornal em mãos, atravessei a avenida indo em sua direção. Entrei na floricultura, despistei perguntando sobre uma mudas de lichia que realmente iria adquirir. Disse a dona do recinto que desejava plantar várias mudas daquela exótica fruta oriental. Depois de algum tempo conversando com a simpática senhora que falou minuciosamente sobre o cultivo da fruta, em dado momento, volta-se para a entrada da floricultura, pede licença e chama com uma voz doce:

- Lidiane, venha minha querida, agora entre.

Um dos mistérios a boa senhora havia feito as honras de esclarecer. Daí a razão da menina estar sempre ali. Foi o suficiente para me satisfazer a curiosidade de quase um mês. Disfarçando o interesse, disse:

- Ah, a linda menina que todos os dias vejo quando vou para o consultório é sua neta!

A senhora sorriu respondendo em seguida:

- Sim. Na verdade não é uma neta, é um anjo que Deus enviou para nossa família. – Falou a senhora com ternura no olhar. E continuou:

- Todos os dias precisa ficar comigo pela manhã. Nunca reclama. Seja frio ou calor. É mesmo um anjo...

Nisso, entre as mudas de flores e árvores frutíferas vinha aproximando-se a neta Lidiane.

- Bom dia! – Cumprimentou a menina os fregueses que estavam no interior do recinto.

Ela parou sorrindo ao meu lado. Acariciei-lhe os cabelos dizendo-lhe que seus dentes eram lindos. Aproveitei e perguntei se fazia uma boa escovação após ingerir alimentos:

-Você é dentista? – Quis saber a menina.

- Isso mesmo. Você é uma boa observadora! – Sorri-lhe admirando sua esperteza.

- Eu escovo muito bem. Nem sempre com vontade, mas porque minha mãe me obriga para que eu não tenha cáries. Ah, eu uso fio dental, limpador de língua todos dos dias, viu? E o que você falou sobre observar... Observar é o que eu mais faço na vida! – Respondeu Lidiane.

- Sua mãe faz muito bem em cuidar direitinho de você e dos seus lindos dentes. Mas, diga-me o que tem observado ultimamente? – O dentista aos poucos ia desvendando segredos.

- As pessoas. Mais os homens. Os pais. Eu estou juntando pedacinhos... – Disse um pouco desconcertada não terminando a frase.

Segurando-me pelo braço, a avó convida-me para ver as mudas de lichia. Na verdade disse-me algo revelador:

- Depois que o pai morreu num acidente de carro, há alguns meses, ela fica ali na frente anotando, anotando...
Pobrezinha, foi a forma encontrada para aliviar as dores da saudade, da perda.

Comovido com o que acabara de ouvir, aumentou meu carinho e o desejo de conhecer o que escrevia aquela menininha. Dirigi-me até ela e disse:

- O que você está juntando nesta bolsinha, menina bonita?

- Por que quer saber? Sabia que curiosidade não é atitude de pessoa educada? – Disse com ar sério.

Achei graça daquela resposta madura e entrei na cabecinha dela para que depositasse um pouco de sua confiança em mim:

- Vou contar um segredo. Eu só cresci por fora, por dentro eu tenho seis anos de idade, por isso sou curioso igual gato de rua!

Foi a vez da menina sorrir. Pareceu surtir efeito a bobagem que havia dito. Lidiane pôs a mãozinha dentro da bolsa retirando o caderninho. Ia entregando-me o caderno quando, de repente, recolheu o braço. Olhou-me bem anotando qualquer coisa no fim das suas escritas e foi dizendo:

- Moço dentista, eu anotei tudo que um homem precisa para ser um homem ideal, um pai perfeito, pode ler!

Surpreso pela rápida aceitação, pus meus olhos sobre o que parecia ser uma lista. Aos seis anos a letra ainda cursiva, seria preciso algum esforço para desvendar aquele quase hieróglifo. Entretanto, pude ler:

"Para ser um homem perfeito, bom pai é preciso: ter bom coração, não zangar se o sorvete escorrer pelos braços. Gritar algumas vezes. Beber refrigerante na praça e não beliscar se,sem querer, o filho arrotar. Abraçar sem ter motivos. Ficar de cara feia. Falar e ouvir com calma. Não precisa ser um homem bonito por fora, mas o coração deve ser lindo porque se um dia a cara de fora estiver feia de zangada, o coração bondoso devolverá o sorriso ao rosto. Tem que falar a verdade sempre. Pode chorar quando tiver vontade mesmo na frente dos filhos. Acho que está bom assim os pedacinhos dos homens e pais que eu observei aqui."

Fiquei impressionado com o que ia lendo. Alguma coisa apertava meu coração, parecia que desabaria em choro. Não esperava mesmo encontrar aquela lista de posse de tão pequena criança. O que me surpreendeu mais ainda foi ler algo que foi escrito por último. Demorei mais tempo para decifrar aquelas garatujas finais. Foi quando minha respiração acelerou. Então li – deve continuar pequeno por dentro como um menino que esqueceu de crescer. A menininha referia-se a mim na conclusão das suas escolhas, naquele ajuntamento dos seus pedacinhos de um pai perfeito.

Discordei de alguns itens daquela lista. Gritar algumas vezes? Fazer cara feia? Olhei de volta para a garotinha e questionei:

- Mas, Lidiane, aqui tem coisas que não fazem parte de um pai perfeito. Cara feia, gritar algumas vezes. Brigar, zangar não faz de ninguém uma pessoa perfeita!

Podem não acreditar, a menina olhou-me dos pés a cabeça como se eu fosse o maior imbecil
, um grande asno que havia visto em seus pequenos anos de vida e filosofou:

- Seu dentista, quem disse que homem e pai perfeito não têm dias de defeito? Só porque uma pessoa briga ela não deixa de ser maravilhosa. Só porque alguém grita ou diz coisas não tão belas que deixa de ser bom, não acha?

Maravilhado estava e mais maravilhado fiquei com a menina. Sim, como havia dito no início, tive a sensação que ela era bem mais sabida que eu. E era! Eu tinha o conhecimento, era homem estudado, formado, aprendi muitas coisas com ajuda dos mestres e livros enquanto a menina retinha sabedoria. Aprendera com vida, com suas ingênuas observações. O que faz um homem perfeito não são suas qualidades físicas ou ser desprovido de fraquezas. O importante são as atitudes tomadas no momento adequado. Seja valer-se da cara feia ou de um grito, tudo feito oportunamente, tendo um propósito não diminui o caráter de um grande homem.

Esta sabedoria da menina levaria comigo. Antes de sair da floricultura com as mudas da lichia, diante da avó, perguntei para sua esperta neta:

- Diz uma coisa, a sua mãe é tão linda e sabida feito você?

Fiquei mesmo tentado em conhecê-la! Mas, este é um assunto para uma outra história...



Djanira Luz
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